O Fórum Econômico Mundial edita regularmente um relatório, chamado “O Futuro do Trabalho”. Nele são indicadas quais as principais habilidades a serem desenvolvidas para os anos futuros. Em 2015, Inteligência Emocional ainda não aparecia nessa lista, mas, a partir de 2018 e nos anos seguintes, passou a fazer parte das competências principais a serem desenvolvidas e mantém-se até 2025, no relatório publicado mais recentemente em Outubro de 2020.

Todos nós já ouvimos também falar de estatísticas, das quais a mais abrangente é do Instituto Gallup, que fala que, apesar de sermos contratados pelo nosso conhecimento e formação técnica, mais de 75% das demissões, quer seja, porque a pessoa se demite ou é demitida, ocorrem por questões comportamentais. Ou seja, as demissões nas organizações não se dão majoritariamente por falta de conhecimento técnico ou por falta de entrega de resultados. Elas ocorrem sim por falta de habilidades comportamentais como relacionamento interpessoal, auto-gestão emocional, resiliência, proatividade, visão organizacional, gestão de conflitos, flexibilidade ou comunicação. Parte destes comportamentos estão por baixo do “guarda-chuva” da inteligência emocional.

Assim, pela importância da Inteligência Emocional na qualidade de vida pessoal, no sucesso da liderança e na conquista de resultados, gostaria de desconstruir algumas crenças limitantes, que frequentemente escutamos as pessoas referindo, e igualmente clarificar os principais conceitos e trazer alguns exemplos.

Primeira crença:
Inteligência emocional tem a ver com a minha capacidade de evitar ou controlar as minhas emoções

Inteligência Emocional, vulgarmente apelidada de IE, é definida como a capacidade de identificar e gerenciar de forma construtiva tanto as nossas emoções como as dos outros, de modo a ter intervenções que criem um impacto positivo para nós, nas nossas relações pessoais ou profissionais, assim como para a organização, grupo ou família. IE tem tanto a ver conosco, como indivíduos, como também com os que nos rodeiam. As emoções não são algo inerentemente ruim e nem podem ser evitadas, elas são uma reação interna a algo que vivenciamos. Por outro lado, se nós deixamos as emoções tomarem conta de nós, normalmente reagimos inconscientemente, atacando verbalmente os outros (se não fisicamente), fugimos da conversa (saindo fisicamente do ambiente, não dando a nossa opinião) ou fazemos de conta que não estamos presentes (bloqueando a nossa participação ou mudando de assunto). Raramente alguma destas reações é positiva em um ambiente coletivo. Precisamos então aprender a estar atentos para perceber o que sentimos e também desenvolver a capacidade de leitura de ambiente, tanto das pessoas com as quais interagimos, como do clima geral. A partir daí podemos decidir qual a melhor ação ou palavra para avançar de forma positiva e construtiva. Um bom líder não controla as emoções da sua equipe, mas tem clareza de que influencia o estado emocional e a capacidade de atuação das pessoas ao seu redor, podendo facilitar ou atrapalhar os resultados e a criação de valor. Um bom líder também apoia e incentiva as pessoas à sua volta a desenvolverem a sua própria inteligência emocional, nomeadamente pelo exemplo.

Segunda crença:
Inteligência emocional tem a ver com ser simpático e não falar de temas controversos

IE tem a ver com a capacidade de escutar e ler os sinais não verbais dos que nos rodeiam, que permitem identificar o estado emocional e mostrar empatia para com os outros. E significa também ser capaz de conduzir conversas difíceis, sobre temas nos quais opiniões ou expectativas possam diferir, como p.ex dar um feedback. Ser atencioso e empático não significa não dar a sua opinião, não se colocar ou se submeter às opiniões dos outros para não discutir. E também não significa se impor agressivamente. Um bom líder percebe quando é momento de ouvir, quando é momento de falar ou desafiar, de forma a influenciar e inspirar positivamente e construtivamente as pessoas à sua volta, nomeadamente para que se desenvolvam. Omitir-se não ajuda nem à carreira de cada um de nós, nem ao crescimento das nossas equipes ou de outras pessoas, cuja evolução desejamos, nem para entregar resultados. O que está em causa é aprender a ser hábil na leitura do momento, perceber o que fazer e principalmente como intervir, de forma a criar movimento e não bloqueio. A empatia é parte fundamental para entender cognitivamente e emocionalmente as outras pessoas, para mostrar um cuidado genuíno e desenvolver as melhores formas de falar com os outros de forma construtiva.

Terceira crença:
Inteligência emocional tem a ver com estar sempre feliz e não poder sentir ou mostrar outras emoções

IE tem a ver com ser capaz de reconhecer, nomear e aceitar o seu estado emocional. IE não significa evitar emoções ou forçar emoções que não sentimos. Se pensarmos na pandemia do Covid, em que tantas coisas atrapalharam a nossa vida dita “normal”, é natural nos sentirmos tristes ou assoberbados. Muitos eventos, que não controlamos influenciaram drasticamente a nossa forma de viver e trabalhar. Fazer de conta que não sofremos ou não aceitar e criticar outros que sintam essas emoções, não vai fazer com que elas desapareçam. Seria como “varrer para debaixo do tapete”. Aí duas coisas tipicamente acontecem: ou as emoções continuam operando de forma inconsciente, afetando a nossa capacidade de pensar e tomar decisões, ou são reprimidas e ficamos à mercê delas voltarem a surgir em momentos menos oportunos, de forma descontrolada, tipo “panela de pressão”. Sabemos que ficar muito tempo alimentando emoções negativas, consciente ou inconscientemente, pode impactar igualmente o nosso bem-estar e saúde física e mental, podendo levar a casos de bloqueio real ou depressão. Ter consciência das suas emoções, mesmos as menos confortáveis de sentir, permite “aumentar a sua auto-gestão” e buscar os recursos internos e externos, para lidar com a situação adversa. A partir daí aumenta a probabilidade de conseguir focar no que se pode gerenciar, no que está sob a nossa área de controle e influência, nomeadamente elementos tão básicos como a nossa respiração ou a nossa atenção. Um bom líder, com os diversos aspectos da IE balanceados, reconhece o ambiente emocional, promove a confiança entre as pessoas e apoia a equipe a se centrar, focar no que é importante e a usar os seus recursos, individuais e coletivos, para gerenciar a situação de forma construtiva.

Tendo em conta tudo o que discutimos, seria um erro pensar que a inteligência emocional está desconectada da lógica ou significa submeter o raciocínio ao domínio dos sentimentos! O autor conceituado Peter Senge diz: “Pessoas com altos níveis de maestria não se podem dar ao luxo de escolher entre razão e intuição, ou entre cabeça e coração, assim como não iriam escolher andar com uma perna ou ver só com um dos olhos”. Para lidar com as contrariedades, precisamos do equilíbrio consciente entre pensamento e emoção.
O importante a ter em conta é que somos todos humanos e as emoções fazem parte dos nossos recursos. É também essa capacidade de sentir todo o espectro de emoções que atua como um forte catalisador para a nossa criatividade e superação, e que nos permite evoluir.

Conheça nossos Autores

.
Susana Azevedo
É sócia-proprietária da ns2a, baseada em São Paulo, Brasil, Susana oferece coaching executivo e programas de desenvolvimento de liderança e gestão para executivos, times e grupos na América Latina, América do Norte e Europa.
Susana AzevedoSusana Azevedo é Coach Executiva, Facilitadora International e CEO da NS2A

Imprimir